Ovos e colesterol: será que podemos confiar nas pesquisas financiadas pela indústria

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O consumo de ovos na dieta aumenta os níveis de colesterol? Esse ainda é um tema muito controverso. Embora muitos pesquisadores tenham investigado essa questão, revisões a cerca de pesquisas recentes procuram investigar se o financiamento de indústrias do setor estão influenciando nos resultados gerais das pesquisas.

O colesterol é uma substância cerosa essencial para a boa saúde, pois é um importante componente estrutural das paredes celulares de nosso corpo. Nosso fígado pode produzir todo o colesterol que precisamos, mas nós também o consumimos em produtos de origem animal.

O problema é que o colesterol que circula em nosso corpo também pode nos trazer problemas. O colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL), que as pessoas costumam chamar de colesterol “ruim”, aumenta o risco de aterosclerose, que é o acúmulo de placas de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos.

A aterosclerose aumenta o risco de derrame, ataque cardíaco e doença arterial periférica.

Como os ovos são ricos em colesterol, os cientistas levantaram preocupações de que eles podem elevar os níveis de colesterol no sangue se uma pessoa os comer em excesso. Para investigar isso, os cientistas realizaram muitos estudos ao longo de mais de 50 anos. No entanto, o que é reafirmado desde sempre, é que os resultados não foram conclusivos.

O papel da indústria de ovos

Alguns especialistas estão preocupados que a pesquisa financiada pela indústria esteja atrapalhando e talvez até distorcendo os resultados.

Como explicam os autores da recente pesquisa de revisão americana: “Nos últimos anos, a indústria de ovos, vem trabalhando especialmente com programas administrados pelo governo dos Estados Unidos, o governo financia estudos que investigam os efeitos dos ovos nas concentrações de colesterol no sangue dos indivíduos”.

Eles ainda acrescentam que:

“O potencial de financiamento da indústria sobre pesquisas é muito grande e isso pode acabar influenciando as decisões sobre políticas nutricionais”.

O objetivo principal da revisão atual foi entender se a proporção de estudos financiados pelo setor está crescendo. Os pesquisadores também queriam ver “se as conclusões do estudo refletiam suas descobertas de forma objetiva”.

No total, os pesquisadores encontraram 211 artigos que atendiam aos seus critérios de revisão e publicaram seus resultados no American Journal of Lifestyle Medicine.

Os autores observam que o financiamento da indústria aumentou significativamente. Nas décadas de 1950 e 1960, não havia estudos financiados pelo setor, mas de 2010 a 2019, 60% dos estudos tiveram apoio financeiro do setor de indústrias.

Adulterando descobertas

No geral, mais de 85% dos estudos relataram que os ovos aumentavam o colesterol no sangue. No entanto, as descobertas mostraram que os autores de artigos financiados pelo setor eram propensos a subestimar a importância desses resultados.

De fato, 49% dos artigos financiados pelo setor relataram conclusões que não coincidiram com seus resultados, em comparação com 13% dos artigos que não receberam financiamento do setor.

Como exemplo, em um estudo, os pesquisadores pediram aos estudantes universitários que comessem dois ovos no café da manhã durante 5 dias por semana, durante 14 semanas. No final do estudo, o colesterol LDL médio dos participantes aumentou em 15 miligramas por decilitro (mg / dl).

Para colocar isso em perspectiva, o colesterol LDL deve estar abaixo de 100 mg / dl para um adulto saudável. Portanto, um aumento de 100 mg / dl para 115 mg / dl é um aumento de 15% no colesterol LDL.

Embora este pareça ser um aumento substancial, neste estudo, não alcançou significância estatística. Como resultado, os autores do estudo concluíram que “400 mg / dia adicionais de colesterol na dieta não afetaram negativamente os lipídios no sangue”.

O autor do estudo, Dr. Neal Barnard, explica que “seria apropriado que os investigadores relatassem que o aumento do colesterol associado aos ovos poderia ter sido devido ao acaso. Em vez disso, eles escreveram que os aumentos não ocorreram de maneira alguma. Similar conclusões foram relatadas em mais da metade dos estudos financiados pelo setor”.

Até onde vai a influência da indústria

Os resultados desta revisão são particularmente preocupantes porque esta linha de pesquisa tem o poder de influenciar políticas públicas. Em 2015, por exemplo, o Comitê Consultivo das Diretrizes Dietéticas dos EUA escreveu que “as evidências disponíveis não mostram uma relação satisfatória entre o consumo de colesterol na dieta e o colesterol sérico”.

No entanto, depois de revisar as evidências disponíveis, nas diretrizes finais, eles pedem que as pessoas comam “o mínimo de colesterol possível”.

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças Americano (CDC), cerca de 95 milhões de adultos acima de 20 anos têm colesterol alto. Dar ao público o conselho certo é de suma importância.

“Nas décadas passadas, a indústria de ovos desempenhou pouco ou nenhum papel em pesquisas de colesterol, e as conclusões dos estudos mostraram claramente que os ovos aumentam o colesterol”, explica o Dr. Barnard.

“Nos últimos anos, a indústria de ovos procurou neutralizar a imagem prejudicial dos ovos, financiando mais estudos e distorcendo a interpretação dos resultados”.

Em particular, os autores identificam o American Egg Board, que é um órgão federal autorizado pelo governo e financiado pela indústria. Sua missão é “aumentar a demanda por todos os ovos e derivados de ovos dos EUA”.

Ao longo dos anos, os cientistas realizaram uma série de meta-análises para avaliar o efeito do consumo de ovos nos níveis de colesterol LDL no sangue. Como exemplo, uma análise recente que reuniu resultados de 28 estudos concluiu que a ingestão de ovos aumenta significativamente as concentrações de colesterol total e de colesterol LDL.

O autor do estudo afirma que “A indústria de ovos montou um intenso esforço para tentar mostrar que os ovos não afetam adversamente os níveis de colesterol no sangue. Durante anos, estudos defeituosos sobre os efeitos dos ovos no colesterol enganaram a imprensa, o público e os formuladores de políticas para atender aos interesses da indústria”.

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